terça-feira, 2 de outubro de 2007

Que papel para o jornalismo?



Cada vez mais, reconhece-se o papel decisivo que as fontes desempenham na produção noticiosa. É sustentada como uma verdade quase irrevogável que hoje não há jornalismo sem fontes. Não há notícias se não houver quem as dê a conhecer aos jornalistas.

Aquilo que é importante perceber nesta relação entre o Jornalismo e as Relações Públicas é quem controla a agenda mediática, isto é, quem controla a produção da informação? Porque, sabemo-lo, a informação é poder.

Os RP têm objectivos claros na sua relação com os jornalistas. Querem-se mostrar prestáveis e necessários, não antagonizando a Imprensa de modo a poder contar com ela para passar as suas comunicações. É um jogo feito às claras. Aliás, Gabriel Garcia Marquez já havia reflectido sobre isso quando sublinhou que “o pior do ofício [jornalismo] é que somos instrumento das fontes”.


Os jornalistas sabem que estão a ser “usados”. Sabem que um RP não se mostra prestável para apenas passar informação para o seu público. Há uma intenção mercantilista por detrás das suas acções. Aquilo que ele defende é o interesse da sua organização, não o do seu público – pelo menos não em primeira linha. Não é por gosto pessoal que os jornalistas são contactados pelos assessores. É, apenas, porque estes têm uma agenda e a concretização dessa agenda precisa dos média enquanto veículo.


Pedro Garcia Rosado refere que “não vale a pena fazer de conta que não há notícias inventadas” numa clara alusão ao papel dos assessores na construção das notícias divulgadas. Posto isto, como se deverá comportar o jornalista?


Em primeiro lugar, ele deve duvidar de tudo. Nunca poderá levar como certa toda a informação passada por um RP, nem publicar a mesma sem a submeter a um rigoroso tratamento de inquisição jornalística. Aliás, será a procura pela garantia da veracidade que servirá como suporte para a validação do papel do jornalista no futuro. Ele terá de ser capaz de, em cada altura, atestar pela veracidade e boa-fé das notícias que produz.


Um outro aspecto assaz importante e, provavelmente, mais relacionado com o estudo da relação Jornalista/RP é a capacidade de compreender o que motiva as fontes de informação, saber que estas fazem o seu jogo – não são espectadores neutros e desinteressados – e que será função do jornalista perceber qual a verdade da informação passada por essa mesma fonte. Se eles – jornalistas – apresentarem posições inertes e acríticas, então o futuro da arte estará em causa.


Se, por outro lado, forem capazes de ser dinâmicos e de usarem a fonte como uma mera ferramenta de iniciação da construção jornalística e procurarem ser eles a criar a notícia, então teremos jornalismo por muito e bons anos. Mas, isso implicará maior capacidade de mobilização dos jornalistas. Estarão eles prontos para abandonar a secretária e irem ao encontro da notícia? Veremos.
Publicado por phillipevieira

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